Sexta-feira, 26 de Junho

Os Dois Jesus: Histórico e Teológico

Publicado em 25/06/2026 às 19:36
Ceres

Há mais de dois mil anos nasceu Jesus, personagem que ficaria conhecido na História como Jesus de Nazaré. Filho de Maria e criado por José, os registros indicam que seu nascimento ocorreu na cidade de Belém da Judeia e teria passado sua infância e juventude em Nazaré, na Galileia, região submetida ao domínio do Império Romano, que controlava grande parte do mundo conhecido naquele período. Atualmente, bilhões de pessoas em todos os continentes professam o Cristianismo, a maior religião do planeta. Entretanto, no decorrer dos séculos, desenvolveu-se uma relevante separação entre duas formas de compreender Jesus: o Jesus Histórico e o Jesus Teológico.

     O Jesus Histórico foi o homem que viveu na Palestina do século I, dentro de um contexto político, social e religioso específico. Era um pregador judeu que percorreu aldeias da Galileia com um discurso diferente da tendência religiosa dos sacerdotes judeus locais, reunindo discípulos e questionando determinadas práticas e interpretações predominantes em alguns textos das escrituras judaica que considerava incompatíveis. Sua existência é reconhecida não apenas pelos Evangelhos, mas também por fontes não cristãs, como os escritos do historiador judeu Flávio Josefo (93 d.C.) e do romano Tácito (116 d.C.), conforme documentos verificados posteriormente.

     Por outro lado, o Jesus Teológico se refere à interpretação construída pelos seus seguidores após sua morte e que se projetou atingindo dimensões expressivas. Nessa perspectiva, Jesus não é apenas um pregador, mas o próprio Cristo, a língua culta predominante à época era a Grega, cuja tradução é Christós e significa “Ungido”, correspondente ao hebraico Mashiach, de “Messias”. Havia ainda os idiomas Aramaico, Hebraico e Latim. O título de Cristo/Messias o considerava na condição de enviado por Deus para a salvação da humanidade. Essa compreensão foi gradualmente desenvolvida pelas primeiras comunidades cristãs e consolidada ao longo dos séculos por meio dos concílios e dos dogmas e doutrina da fé cristã.

     A trajetória de Jesus é narrada no Novo Testamento da Bíblia, especialmente nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Esses textos descrevem seu nascimento, ministério, milagres, ensinamentos, crucificação e ressurreição. Contudo, foram escritos décadas após os acontecimentos que relatam a vida de Cristo, entre os anos 70 e 100 d.C. e possuem objetivos predominantemente religiosos, razão pela qual constituem fontes fundamentais para o estudo do Jesus Teológico.

     Um aspecto que desperta grande interesse entre historiadores e estudiosos das religiões é o fato de os Evangelhos fornecerem pouquíssimas informações sobre a infância e a juventude de Jesus. Após os relatos de seu nascimento e outros fatos, se destaca o episódio quando aos doze anos, teria debatido com os doutores da Lei no Templo de Jerusalém. O Novo Testamento silencia acerca de aproximadamente dezoito anos de sua vida. Esse período, conhecido como os "anos ocultos de Jesus", permanece cercado de incertezas. Não há registros detalhados desse período. Para a historiografia, esse silêncio representa um dos maiores desafios da biografia de Jesus. Por outro lado, para os teóricos do cristianismo, os acontecimentos da infância são menos relevantes porque a missão pública de Cristo e seu significado espiritual prevalecem.

     Essa lacuna evidencia uma diferença fundamental entre o Jesus Histórico e o Teológico. A História procura reconstruir a trajetória do homem que viveu na Galileia, buscando compreender sua formação, seu ambiente familiar e cultural na sociedade judaica do século I, já os autores dos evangelhos priorizaram a sua mensagem, sua morte e sua ressurreição. Dessa forma, não devem ser entendidos como biografias modernas, mas como testemunhos religiosos produzidos em um contexto temporal delimitado e com objetivo específico referente a uma criação da imagem de Jesus além de sua condição humana.

     Entre os principais responsáveis pela expansão da mensagem cristã destaca-se Paulo de Tarso. Embora não tenha conhecido Jesus como discípulo, Paulo tornou-se o mais influente divulgador de seus ensinamentos. Suas cartas, dirigidas às primeiras comunidades cristãs, ajudaram a estruturar a doutrina nascente e permitiram que a nova fé ultrapassasse as fronteiras do judaísmo, alcançando os povos gentios, ou seja, aqueles que não eram judeus. Inicialmente, não existia uma religião organizada nos moldes atuais. Os seguidores de Jesus formavam pequenas comunidades espalhadas pela Ásia, África e Europa, sob o controle do Império Romano.

O termo "cristão" surgiu pela primeira vez entre os anos 40 e 50 d.C., na cidade de Antióquia, localizada na atual Turquia. Originalmente, o símbolo mais utilizado pelos cristãos era o peixe, empregado como forma discreta de identificação durante os períodos de perseguição. Como sua prática religiosa era considerada ilegal pelas autoridades romanas, muitos cultos eram realizados em locais escondidos ou nas catacumbas subterrâneas. À medida que o Cristianismo se expandia, aumentava também a repressão. O imperador Nero (54–68 d.C.) atribuiu aos cristãos a responsabilidade pelo grande incêndio de Roma ocorrido em 64 d.C., justificando a realização de severas perseguições. Muitos seguidores foram executados por crucificação, queimados vivos ou lançados às feras nos anfiteatros existentes.

Posteriormente, o imperador Diocleciano desencadeou, em 303 d.C., aquela que ficou conhecida como a maior perseguição. Igrejas e livros sagrados foram destruídos e milhares de cristãos condenados à morte. Paradoxalmente, a violência empregada contra os cristãos contribuiu para fortalecer a nova religião. O testemunho de homens e mulheres que preferiam enfrentar a morte a renunciar à sua fé despertou admiração em diversos setores da sociedade romana. O exemplo desses mártires conquistou simpatizantes entre as camadas populares e entre membros da administração imperial.

 

 Uma profunda transformação ocorreu em 313 d.C., quando o imperador Constantino promulgou o Édito de Milão, permitindo liberdade religiosa aos cristãos e proibindo perseguições promovidas pelo Estado romano. A partir desse momento, o Cristianismo deixou de ser uma religião clandestina para adquirir crescente influência política, social e cultural dentro do Império. Contudo, a legalização da nova fé expôs importantes divergências doutrinárias, destacando-se a controvérsia ariana, manifestada por um presbítero da parte oriental de nome Ário, o qual defendia que Jesus havia sido criado por Deus, portanto, não possuía a mesma natureza divina e eterna do Criador. A discussão provocou intensa divisão entre os cristãos e exigiu uma solução institucional.

Diante desse cenário, o imperador Constantino convocou, em 325 d.C., o Concílio de Nicéia, considerado o primeiro grande concílio ecumênico da Igreja Cristã, reunindo bispos de diversas regiões do Império Romano, tanto do ocidente quanto do oriente, o concílio condenou o arianismo e estabeleceu que Cristo era da mesma substância que o Pai. A teoria ariana foi considerada herege. Essa decisão tornou-se um marco fundamental na construção da doutrina cristã, contribuindo conceitualmente para a consolidação do chamado Jesus Teológico. Embora a crença na divindade de Cristo já existisse entre muitos cristãos, foi em Nicéia que essa compreensão recebeu uma padronização formal e universal. Décadas depois, em 380 d.C., o imperador Teodósio I promulgou o Édito de Tessalônica, decreto esse que estabeleceu o Cristianismo como religião oficial do Império Romano, conferindo à Igreja uma posição privilegiada na estrutura do Estado. A partir desse momento, a fé cristã deixou de ser apenas tolerada para tornar-se a religião dominante para os romanos. Em contrapartida, os antigos cultos pagãos passaram gradualmente a perder espaço e influência.

A adoção do Cristianismo como religião oficial do Império Romano não aconteceu exclusivamente por razões espirituais, mas também por motivações políticas e administrativas. Ao longo do século IV, Roma enfrentava crises econômicas, disputas internas pelo poder, invasões dos povos germânicos e dificuldades para manter a unidade de um território tão extenso. Por conseguinte, a igreja apresentava-se como um elemento capaz de promover união social e uma identidade comum entre os habitantes do Império, inclusive influenciando os próprios invasores “bárbaros”. Diferentemente do paganismo romano, composto por inúmeros cultos e divindades regionais, a religião cristã possuía uma estrutura organizada hierarquicamente e relativamente unificada, com a distribuição de suas lideranças em todas as camadas da sociedade, com uma mensagem universal que transcende diferenças étnicas e culturais.

 

Para os imperadores, especialmente Constantino e seus sucessores, a aliança com a Igreja representava um importante instrumento de estabilidade política e militar, com capacidade de fortalecer a contínua autoridade do imperador. Com isso, infere-se que a trajetória do Cristianismo foi um processo histórico complexo. Jesus de Nazaré que pregava sua mensagem relacionada ao Reino de Deus, ao longo dos séculos, teve sua representação progressivamente reinterpretada e elaborada à luz de estrutura teológica institucional, contribuindo oficialmente para construção icônica do Cristo atual. Em 476 d.C., a Igreja tornou-se uma das poucas instituições que conseguiu prevalecer numa Europa conturbada, sobretudo no período do feudalismo, intensificando sua influência não apenas religiosa, mas política também. Nesse cenário, o bispo de Roma, posteriormente foi denominado Papa. Dessa forma, o líder religioso da Igreja passou também a exercer poder territorial e econômico de grande proporção.

Importante ressaltar duas situações que tiveram o condão de estabelecer profundas mudanças sociais, religiosas e até mesmo cultural em larga escala no mundo Cristão, quais sejam: O grande cisma de 1054 d.C., quando, por questão teológica e doutrinária, -acrescenta-se também disputa de poder-, ocorreu a divisão da parte ocidental (Roma) e oriental (Constantinopla), com as referidas autoridades se excomungando reciprocamente, gerando duas instituições da mesma religião: Igreja Católica Apostólica Romana (o Papa é o líder maior) e as Igrejas Ortodoxas com várias ordens geográficas independentes. Posteriormente aconteceu em 1517 d.C. a Reforma Protestante de Martinho Lutero, insurgindo contra práticas de corrupção da Igreja, como a comercialização de indulgências (pecados) e de cargos eclesiásticos (simonia).  O movimento protestante desencadeou várias denominações, tais como: Luterana, Calvinistas, Anglicano (Inglesa), subdividindo em Presbiterianos (Calvinistas), Metodistas (Anglicanos) e os Batistas que são frutos do movimento separatista inglês do século XVII. Nos séculos posteriores surgiram novos movimentos religiosos de matriz cristã, entre eles os Adventistas do Sétimo Dia, as Testemunhas de Jeová, os Pentecostais e, posteriormente, os grupos Neopentecostais, além de outras. Apesar dessas divisões, a figura de Jesus continua como pilar de todas as vertentes cristãs, embora com diversas formas de interpretação.

Em 1929 emerge a cidade do Vaticano como Estado constituído, fruto de um acordo firmado entre a Santa Sé e o governo italiano liderado por Benito Mussolini, reconhecendo oficialmente a soberania do Vaticano como um Estado independente e garantindo à Igreja Católica autonomia para o exercício de sua atividade religiosa. O Vaticano é o menor país do mundo em extensão territorial, centro administrativo e espiritual da Igreja Católica Apostólica Romana. O percurso que conduziu o Cristianismo, como religião perseguida, a religião oficial do Império Romano, demonstra como a figura de Jesus ultrapassou os limites geográfico, temporal e cultural, para se tornar a instituição religiosa mais importante da história. O Jesus Histórico, profeta judeu da Galileia, se transforma no Jesus Teológico, centro da fé cristã, influenciando a cultura ocidental. A distinção entre ambos não significa a existência de duas pessoas diferentes, mas uma maneira de compreender a mesma personalidade em diferentes visões: uma investigada pelos métodos da História como ciência e outra interpretada pela fé.

 

Samir Lima Habach – Major Veterano da Polícia Militar de Goiás

Graduado em História

Graduado em Pedagogia

Pós-graduação em História da Guerra

Gestor em Segurança Pública

 

Bibliografia Consultada: Karen Armstrong; Bart D. Ehrman; Geza Vermes; John Dominic Crossan; Paul Johnson; Justo González; Flávio Josefo; Tácito; Bíblia Sagrada (Novo Testamento).

 

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